PROPOSTA DE REDAÇÃO
Muitos adolescentes têm sido atraídos por comunidades em redes sociais conhecidas como “machosfera” ou “manosfera”, nas quais circulam discursos de ódio e incita-se a violência contra mulheres. Escreva um texto dissertativo-argumentativo sobre a ideologia machosfera e a propagação RedPill.
TEXTO 1
A comoção causada pela série Adolescência, da Netflix, é sintoma de uma revelação inconveniente: a de que o perigo está dentro de casa. No enredo, o adolescente Jamie Miller (Owen Cooper), 13 anos, é autor de um homicídio. Ele esfaqueou Katie, 13 anos, sua colega de classe. E não se trata de um spoiler: a informação é apresentada logo no primeiro episódio. A questão que a série levanta não é quem nem como, mas por quê. E não há resposta simples nem única. Online e sem conhecimento dos seus pais, Jamie sofria bullying de Katie e acessava conteúdos redpill e incel, duas subculturas violentas da internet que compõem a chamada machosfera ou manosfera. Redpill é o termo usado para designar indivíduos e grupos que pregam uma superioridade masculina radicalizada e que compartilham conteúdos misóginos, de ódio e submissão de mulheres. Já incel, flexão em inglês das palavras involuntário e celibatário, indica pessoas que não conseguem encontrar um par romântico ou sexual. Majoritários entre os incels, os meninos culpam as mulheres por seu celibato involuntário e, em muitos casos, pregam a violência como uma vingança. Especialistas alertam que este tipo de conteúdo é cada vez mais comum na internet, atrai adolescentes vulneráveis em busca de pertencimento e tem potencial para radicalizá-los a ponto de discursos de ódio online se concretizarem em crimes cometidos no mundo real. (Adaptado de Fernanda Mena. Radicalização de jovens é gradual e afeta vulneráveis, dizem especialistas. Folha de São Paulo. 25/03/2025.)
TEXTO 2
Em 2014, em Isla Vista, na Califórnia (EUA), Elliot Rodger, um jovem de 22 anos que se autodenominava incel, matou seis pessoas e feriu 14 em uma tentativa de “punir” as mulheres que o rejeitaram. Rodger gravou um vídeo antes do ataque e afirmou que cometeu os assassinatos porque as mulheres não queriam fazer sexo com ele. Depois, ele mesmo se matou. Em 2018, dez pessoas morreram atropeladas em Toronto, no Canadá, por um automóvel dirigido por Alek Minassian. Dias antes, Minassian havia publicado em sua conta no Facebook diversas mensagens sobre sua frustração: “A Rebelião Incel já começou!”, escreveu. Em 2021, foi a vez de Jake Davison, que divulgava muitas ideias associadas aos incels em suas redes sociais, matar cinco pessoas no norte da Inglaterra. Após o ataque de Davison, as autoridades do Reino Unido manifestaram a intenção de declarar os grupos incels como “organizações terroristas”. (Adaptado de BBC News Mundo. Quem são os incels, o movimento sombrio retratado na aclamada série “Adolescência”. 21/03/2025.)
TEXTO 3
A expansão da machosfera exige uma resposta coordenada entre poder público e sociedade civil. A atuação precisa combinar mecanismos legais já existentes, projetos de educação e iniciativas voltadas à prevenção da violência de gênero e da radicalização masculina. No campo jurídico, quatro leis brasileiras já são aplicadas em casos de violência online:
• A Lei Maria da Penha, de 2006, passou a proteger não só vítimas de violência doméstica, como também de agressões digitais.
• A Lei Lola Aronovich, de 2018, permite à Polícia Federal investigar conteúdos misóginos que incentivem o ódio contra mulheres.
• A Lei do Sinal Vermelho, de 2021, passou a reconhecer a violência psicológica como crime, com punição para situações que envolvam ameaças, perseguições ou manipulação emocional, tanto online quanto presencialmente.
• A Lei 15.123/25, conhecida informalmente como “Lei dos Deepfakes”, de 2025, reconhece a violência psicológica contra mulher praticada com uso de inteligência artificial ou qualquer outro recurso tecnológico. (Adaptado de Sara Coutinho. Machosfera: a violência de gênero no ambiente digital. Nexo Jornal. 19/06/2025.)
TEXTO 4
Segundo Christian Dunker, professor de Psicologia Clínica da USP, os sentimentos expostos pelo red pill revelam dificuldades enfrentadas pelos próprios homens, que se veem com culpa e vergonha. “Sofrem porque se sentem criminosos sociais, porque são obrigados a transformações que têm efeitos depressivos. E a violência, muitas vezes, é efeito colateral disso. É um sofrimento mal reconhecido, negado e invisível socialmente. Evolui, em tese, para formação de sintomas, para violência e disruptividade social.” (Adaptado de Leon Ferrari. Red Pill: O que ‘coaches’ de masculinidade, como ‘Calvo do Campari’, têm a ver com machismo? Estadão. 12/03/2023.)
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