PROPOSTA DE REDAÇÃO
TEMA:
Os desafios da inclusão de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA)
TEXTO I
Na obra literária e cinematográfica contemporânea, a série norte-americana Atypical retrata a rotina de Sam, um jovem autista em busca de autonomia e aceitação social. Foram da ficção, no entanto, a realidade brasileira impõe sérios entraves à inclusão plena do Transtorno do Espectro Autista (TEA), distanciando-se do ideal de uma sociedade igualitária. Nesse cenário, destacam-se a negligência estrutural do Estado e o preconceito enraizado no corpo social. Em primeiro lugar, cabe pontuar que a omissão governamental agrava a marginalização desses indivíduos. Sob a ótica do sociólogo Lev Vygotsky, o meio social é determinante para o desenvolvimento pleno do indivíduo. Contudo, o poder público muitas vezes falha em garantir suportes básicos — como a adaptação de espaços urbanos, o treinamento adequado de profissionais da educação e o suporte em saúde. Embora exista a Lei Berenice Piana (Lei nº 12.764/2012) e avanços como a Lei 14.624/2023 (cordão de girassol), há um abismo entre o texto constitucional e a aplicação prática das políticas de inclusão. Além disso, o preconceito e a desinformação alimentam o capacitismo no cotidiano escolar e laboral. A falta de conhecimento sobre as características do espectro — como a hipersensibilidade ou as especificidades na comunicação — faz com que crianças e adultos autistas sofram exclusão, bullying e o cerceamento de suas potencialidades. A carência de empatia coletiva transforma a diversidade em estigma, violando princípios fundamentais da dignidade humana previstos na Declaração Universal dos Direitos Humanos. É imperativo, portanto, que o Estado tome medidas para reverter esse quadro. Compete ao Ministério da Educação e Cultura (MEC), em parceria com os estados e municípios, promover a capacitação contínua de professores e a adaptação física e pedagógica das escolas regulares. Essa ação deve ser realizada por meio de oficinas formativas e repasse de verbas específicas, com o intuito de acolher adequadamente os estudantes com TEA. Paralelamente, cabe ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania criar campanhas de conscientização em massa na mídia e em ambientes corporativos, combatendo o preconceito e garantindo a efetiva integração social dos neurodivergentes. Fonte: Redação e Linguagem.
TEXTO II
O Transtorno do Espectro Autista - TEA é uma condição do desenvolvimento do cérebro que afeta
a comunicação, a interação social e os comportamentos. O termo “espectro” indica que o autismo se
manifesta de formas diferentes em cada pessoa, desde quadros leves até casos que exigem maior apoio
no dia a dia. Ao longo das décadas, o TEA passou por diferentes classificações: inicialmente relacionado
à esquizofrenia infantil, foi reconhecido nas décadas de 1970 e 1980 como um transtorno distinto do
neurodesenvolvimento, com múltiplos níveis de intensidade e apresentações clínicas.
Os manuais diagnósticos modernos, como o DSM-5 e a CID-10, unificaram várias categorias antes
separadas: Autismo clássico, Síndrome de Asperger e outros Transtornos do desenvolvimento sob a
definição de Transtorno do Espectro Autista, exceto a Síndrome de Rett, que tem classificação própria.
O TEA é hoje compreendido como parte dos transtornos do neurodesenvolvimento, reconhecendo a
diversidade de sintomas, comorbidades e trajetórias individuais. Essa abordagem permite que intervenções e apoios sejam personalizados, considerando as potencialidades e necessidades de cada pessoa, ao
mesmo tempo em que valoriza o diagnóstico precoce e a inclusão social.
Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/a/autismo. Acesso em: 2 fev. 2026
TEXTO III
Segundo o Censo Demográfico 2022, uma em cada 85 pessoas são diagnosticadas com autismo no
Brasil, correspondendo a 1,2% da população brasileira. Essa foi a primeira pesquisa do tipo realizada
no país, uma vez que foi só em 2019, a partir da Lei nº 13.861, que alterou a Lei nº 7.853, de 1989, que
o Transtorno do Espectro Autista foi incluído no Censo. Antes do censo, a estimativa apresentada pela
Academia Médica em 2021 indicava cerca de dois milhões de pessoas portadoras de TEA no Brasil – um
aumento de 20% nos casos. Se compararmos com as estimativas realizadas pela Abra – Associação Brasileira de Autismo – em 1997, o aumento é de cerca de 300%, partindo de 600 mil para 2,4 milhões de
pessoas diagnosticadas.
(...)
Esse cenário não se limita ao Brasil. Pesquisas mostram um aumento de, 382% nos casos de autismo infantil nos Estados Unidos, partindo de um em cada 150 crianças diagnosticadas para um em cada
31. Isso reflete não só maior reconhecimento diagnóstico, mas também mudanças de critérios, maior
acesso a serviços e maior consciência social. Ou seja, parte do “aumento” é estatístico e cultural, não
apenas biológico, como apresentado anteriormente.
Já em 2017, a professora Maria Aparecida Affonso Moysés, da Faculdade de Ciências Médicas da
Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e militante do Movimento Despatologiza, nos chamava
atenção sobre uma “falsa epidemia”. Em entrevista para o jornal da UFMG, ela alerta: “A epidemia é de
diagnósticos, não de transtornos mentais”. Cada vez mais pessoas vêm procurando por um possível
diagnóstico e sendo enquadradas como autistas. Esses diagnósticos têm um grande impacto social, político e econômico, principalmente no Brasil onde, de acordo com a Lei nº 13.146/2015, pessoas autistas de qualquer nível de suporte são consideradas pessoas portadoras de deficiência e, portanto, aptos
a direitos incluindo assistência médica e financeira. Mas será que todas essas 2,4 milhões de pessoas
realmente precisam desse apoio? O professor e psiquiatra Joel Rennó Jr. diz em sua reportagem para
o Notícias R7: “embora a acurácia do diagnóstico tenha melhorado, muitos diagnósticos são errôneos,
prejudicando o acesso de verdadeiros autistas a tratamentos”.
Assim, os números sobre o autismo no Brasil e no mundo não podem ser lidos de forma isolada:
eles traduzem tanto avanços científicos e legais quanto tensões sociais sobre o que significa ser diagnosticado. O aumento nos registros é, ao mesmo tempo, fruto de maior visibilidade e de mudanças nos
critérios clínicos, mas também abre espaço para questionamentos sobre diagnósticos precipitados e
seus efeitos práticos na vida das pessoas. Mais do que discutir se vivemos ou não uma “epidemia”, o
desafio que se coloca é o de equilibrar precisão diagnóstica, acesso justo a direitos e políticas públicas
efetivas, garantindo que a expansão de números não obscureça a singularidade de cada indivíduo e a
complexidade do fenômeno.
Disponível em: https://jornal.unifal-mg.edu.br/ha-uma-epidemia-de-autismo-no-brasil/. Acesso
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